O final de 2025 trouxe uma mistura interessante de títulos dominando o tempo dos jogadores no Steam Deck. A Valve divulgou seu ranking mensal, baseado no tempo total de jogo acumulado, e revelou que, enquanto um novo fenômeno "survivor-like" conquistou o topo, velhos conhecidos e RPGs profundos continuam firmes nas preferências dos usuários do portátil. A lista é um retrato fascinante de como a mobilidade está moldando os hábitos de jogo.

Stardew Valley continua sendo atualizado por seu criador. Imagem: Divulgação/ConcernedApe

O Topo da Lista: Novos Fenômenos e Favoritos Perenes

Liderando com folga em dezembro, Megabonk mostrou que a fórmula viciante de Vampire Survivors tem pernas longas, especialmente quando transposta para um ambiente 3D. É curioso como um gênero que explodiu há alguns anos continua a gerar sucessos, não é? A jogabilidade "pegue e jogue" parece ser a combinação perfeita para uma sessão rápida no portátil.

Logo atrás, Hades II manteve sua força, provando que sequências bem-feitas podem capturar a mesma magia – e o mesmo tempo dos jogadores. Já na terceira posição, o eterno Stardew Valley nos lembra que, às vezes, o conforto de uma fazenda pixelada é tudo que a gente precisa. A dedicação contínua do desenvolvedor com atualizações como a 1.7 certamente ajuda a manter a comunidade engajada.

E a lista não para por aí. A presença de Baldur's Gate 3 em quarto lugar é, na minha opinião, um dos dados mais interessantes. Quem diria que um RPG tão denso e complexo, com sessões que podem durar horas, se encaixaria tão bem no formato portátil? Parece que os jogadores estão encontrando maneiras de mergulhar em Faerûn no sofá, na cama ou durante uma viagem.

Os Outros Habitantes do Ranking

Olhando para o resto do top 10, vemos uma diversidade incrível de gêneros, o que fala muito sobre a versatilidade do Deck. Títulos como BALL x PIT e Dispatch representam aqueles jogos indie que surgem do nada e cativam uma legião de fãs. Já Slay the Spire e Balatro são a prova viva de que os jogos de cartas e construção de baralhos encontraram um lar perfeito nos portáteis – são ideais para pausas rápidas e sessões longas, dependendo do seu humor.

Dois lançamentos mais recentes também conseguiram seu espaço: ARC Raiders e Clair Obscur: Expedition 33. Este último, um RPG por turnos com uma estética visual marcante, mostra que há apetite para experiências narrativas robustas mesmo em um dispositivo móvel.

Ator principal de Clair Obscur reconhece saber pouco sobre o game. Foto: Divulgação/Kepler Entertainment

O Contexto Por Trás dos Números

É crucial entender como essa lista é compilada. A Valve conta apenas o tempo jogado através da Steam oficial. Isso significa que uma parcela significativa da experiência no Deck – jogos da Epic, GOG, ou até mesmo via Windows – fica de fora da métrica. Quantas horas de Cyberpunk 2077 ou Sea of Stars, comprados em outras lojas, não estão representadas aqui? Provavelmente muitas.

Isso levanta uma questão interessante sobre o ecossistema do portátil. A facilidade do SteamOS é inegável, mas a comunidade sempre encontra maneiras de expandir seus horizontes. A dualidade entre a experiência "plug-and-play" oficial e as possibilidades abertas pela instalação de Windows ou de outras camadas de compatibilidade é parte do que define o Steam Deck. Você prefere a simplicidade ou a liberdade total?

E falando em experiência, o time do Adrenaline já colocou o Deck através de seus passos. De análises de desempenho com Elden Ring e Marvel’s Spider-Man Remastered ao experimento de instalar Windows para comparar resultados, os testes mostram que o hardware, mesmo não sendo o mais recente, continua surpreendendo pela capacidade de rodar títulos exigentes.

No fim das contas, listas como essa são mais do que um simples ranking. Elas são um instantâneo da cultura gamer em um formato específico. Revelam tendências, confirmam a vitalidade de certos gêneros e, acima de tudo, mostram que os jogadores valorizam a liberdade de levar suas experiências favoritas para onde quiserem. Seja um roguelike frenético, um RPG épico ou um simulador relaxante de fazenda, o Steam Deck provou ser a plataforma que abraça essa diversidade.

Mas vamos além do top 10. Mergulhar nas posições seguintes, digamos, do 11 ao 20, é onde a lista fica ainda mais reveladora. É aqui que encontramos títulos que talvez não tenham o apelo de massa dos primeiros colocados, mas que possuem comunidades fiéis e dedicadas no portátil. Jogos como Against the Storm, um roguelite de construção de cidade, ou Dome Keeper, com sua mistura única de escavação e defesa de torre, prosperam no Deck. Por quê? A resposta muitas vezes está na jogabilidade em sessões curtas e na sensação de progresso constante, mesmo em meia hora de jogo. São experiências feitas sob medida para o estilo de vida móvel, onde você pode realizar uma "corrida" ou defender sua cúpula durante o trajeto de metrô.

E não podemos ignorar o fenômeno dos jogos em "acesso antecipado" (Early Access). Muitos títulos que aparecem nas listas do Steam Deck passam anos nesse estado, refinando-se com o feedback direto dos jogadores. O portátil, por sua natureza, se torna um campo de testes perfeito. Desenvolvedores podem observar como os controles tateis, a bateria e a legibilidade da interface se comportam no hardware real, longe da mesa com mouse e teclado. Essa simbiose entre plataforma e desenvolvimento em estágio inicial é algo único. Você já comprou um jogo em Early Access pensando especificamente em jogá-lo no Deck?

A Influência do Hardware e das Atualizações

A chegada do modelo Steam Deck OLED no final de 2023, com sua tela vibrante e bateria melhorada, sem dúvida alterou alguns comportamentos. Jogos com paletas de cores ricas e cenários escuros, como muitos dos RPGs e survival horrors populares, ganharam um novo fôlego. De repente, explorar uma masmorra em Darkest Dungeon II ou navegar pelos oceanos sombrios de Sunkenland se tornou uma experiência visual mais imersiva. O hardware não só executa os jogos; ele também direciona, mesmo que sutilmente, o que os jogadores escolhem experimentar nele.

Além disso, as atualizações de software do SteamOS são um fator silencioso, mas crucial. Cada melhoria na camada de compatibilidade Proton pode elevar um jogo de "incompatível" ou "jogável" para "verificado". Lembro-me de tentar jogar um título específico há um ano e ele simplesmente não abria. Uma atualização do sistema meses depois resolveu tudo magicamente. Esses ajustes contínuos da Valve mantêm uma biblioteca gigantesca de jogos antigos e novos funcionando, o que é um imã para quem quer revisitar clássicos ou tentar lançamentos indie menos otimizados. É um ecossistema vivo, que respira através de patches e correções.

O Que a Lista Não Mostra: Os "Jogos de Viagem"

Existe uma categoria informal de jogos que eu chamo de "jogos de viagem" – aqueles que você instala especificamente para um voo longo ou uma viagem de trem, onde não há conexão com a internet. Eles raramente dominam o ranking de horas totais, mas são pilares da experiência Deck. São jogos como Into the Breach, Vampire Survivors (o avô do gênero) ou mesmo modos campanha de jogos maiores que podem ser jogados offline. A lista da Valve, focada no tempo total, não captura essa intencionalidade de uso. Quantos jogadores têm uma pasta ou coleção dinâmica chamada "Viagem" no seu Deck? Aposto que muitos.

E isso nos leva a outro ponto: a personalização. Parte da magia do Steam Deck está em ajustar cada jogo para obter o equilíbrio perfeito entre desempenho visual e duração da bateria. Reduzir o TDP, limitar a taxa de quadros, ajustar configurações gráficas... para alguns, esse processo de "otimização" é quase um jogo em si. É fascinante pensar que duas pessoas podem estar jogando o mesmo Baldur's Gate 3 no mesmo hardware, mas com experiências técnicas radicalmente diferentes porque uma priorizou 40 FPS estáveis e a outra está tentando extrair cada detalhe gráfico a 30 FPS. Essa camada de interação técnica com o jogo é uma parte fundamental do apelo do dispositivo.

Olhando para o futuro, fico me perguntando como a próxima geração de portáteis PC, como o Asus ROG Ally ou o Lenovo Legion Go, está influenciando esse cenário. A competição é saudável e força todos os fabricantes, incluindo a Valve, a evoluir. A possibilidade de um "Steam Deck 2" com hardware mais potente poderia, por exemplo, trazer mais jogos AAA com ray tracing para o topo da lista? Ou será que a simplicidade, a ergonomia e o ecossistema integrado continuarão sendo os reis, mantendo os jogos indie e os RPGs profundos no comando? A resposta, como sempre, estará nas mãos – literalmente – dos jogadores.

Com informações do: Adrenaline