Em um capítulo que parece saído de um jogo de paciência jurídica, a Nintendo finalmente obteve uma vitória significativa em uma batalha legal que começou quando o Wii ainda era o console da moda. A empresa japonesa, famosa por sua postura agressiva na proteção de propriedade intelectual, venceu o mais recente round contra a Nacon (antiga BigBen Interactive) por suposta violação de patentes relacionadas ao icônico Wii Remote. Mas será que essa história realmente chegou ao fim? A sensação é que estamos na fase final de um boss fight que já atravessou quatro gerações de consoles.

O processo, iniciado em 2010, acusava a Nacon de usar sem autorização tecnologias que eram o coração da experiência do Wii. Estamos falando daqueles sensores de movimento que transformaram nossa sala de estar em uma quadra de tênis virtual, do sistema de câmera que capturava nossos gestos desengonçados, e até mesmo da ergonomia peculiar do controle. A Nintendo alegava que não se tratava apenas de copiar um formato, mas de piratear a engenharia por trás da magia. E olha, considerando que o Wii vendeu mais de 100 milhões de unidades, dá para entender por que a empresa guarda essas receitas com tanto zelo.
Uma vitória com gosto de revanche (e juros acumulados)
Enquanto a Nintendo já havia vencido em instâncias inferiores, a Nacon recorreu repetidamente, alongando o processo até limites quase cômicos. O resultado? Uma multa estimada em 7 milhões de euros, valor que inclui juros acumulados ao longo de uma década e meia. Para colocar em perspectiva, esse processo começou quando Barack Obama estava no primeiro ano de seu mandato e o iPhone 4 era o celular mais desejado do planeta.
O que mais me impressiona nessa história toda é a persistência de ambas as partes. De um lado, a Nintendo com sua famosa teimosia legalística; do outro, uma empresa disposta a gastar milhões em advogados para protelar o inevitável. E no meio, os fãs que já trocaram o Wii por um Switch, e talvez até por um Switch 2 quando ele chegar.

O jogo pode não ter terminado
Aqui está a reviravolta: os advogados da Nacon já anunciaram que vão recorrer novamente da decisão da Corte Regional de Mannheim. Parece aquela fase de chefe que você acha que derrotou, mas ele levanta para uma segunda forma ainda mais poderosa. Na prática, isso significa que os escritórios de advocacia envolvidos podem continuar faturando por mais alguns rounds.
E essa não é uma batalha isolada. A Nintendo tem construído uma reputação de gladiadora dos tribunais. Recentemente, a empresa venceu um processo contra o streamer James "Archbox" Williams, que transmitia jogos pirateados do Switch usando emuladores – e ainda fazia piadas com os advogados durante o processo. Em setembro, foi a vez da fabricante de acessórios Genki cair, acusada de usar informações roubadas sobre o Switch 2 para criar produtos.
O padrão é claro: seja contra uma grande corporação ou um indivíduo, a Nintendo não hesita em ir à justiça. Alguns criticam essa abordagem como excessivamente agressiva, enquanto outros argumentam que é necessária para proteger anos de pesquisa e desenvolvimento. Particularmente, acho curioso como essa postura contrasta com a imagem familiar e acessível que a marca projeta através de seus personagens e jogos.
E você, o que acha? Até que ponto uma empresa deve ir para proteger sua propriedade intelectual? A linha entre inspiração e violação é mais tênue do que parece, especialmente em um mercado onde todo mundo parece estar observando e aprendendo com o sucesso alheio. Enquanto isso, os advogados seguem faturando, e o Wii Remote, aquele controle que nos fez sentir como verdadeiros tenistas por uma tarde, continua sendo o centro de uma disputa que já é maior de idade.
Mas vamos mergulhar um pouco mais fundo nessa questão da propriedade intelectual, porque ela é um verdadeiro campo minado na indústria de games. A patente do Wii Remote, especificamente, é um caso fascinante. Ela não protege apenas um botão ou um formato plástico; protege um conceito de interação. A ideia de apontar para a tela e ter seus movimentos traduzidos no jogo de forma intuitiva. Quando isso foi lançado em 2006, foi revolucionário. E a Nintendo, claro, patenteou cada aspecto que conseguiu.
O problema – ou a beleza, dependendo do seu ponto de vista – é que quando uma ideia dá tão certo, ela se torna um padrão. E aí fica a dúvida: onde termina a proteção legítima de uma inovação e começa o bloqueio ao progresso do setor? A Sony, com o PlayStation Move, e a Microsoft, com o Kinect, tiveram que navegar por essas águas turbulentas, desenvolvendo suas próprias soluções técnicas para um conceito similar. A Nacon, na visão do tribunal, parece ter tentado um atalho.
O custo oculto de uma guerra jurídica
Além dos 7 milhões de euros, há um custo menos visível nesses 15 anos de processo. Pense no tempo de engenheiros, executivos e departamentos jurídicos desviados de projetos novos para defender um produto que já saiu de linha. Pense na energia criativa drenada. Em minha experiência acompanhando o setor, vejo que processos assim criam um clima de cautela excessiva. Startups ou empresas menores podem hesitar em inovar em controle de movimento, realidade virtual ou feedback tátil por medo de esbarrar em uma patente ampla da Nintendo, Sony ou Microsoft.
É um efeito paralizante. Você já se perguntou por que não vemos mais periféricos malucos e experimentais, como nos tempos do Nintendo Power Glove ou do Sega Activator? Parte da resposta está aí. O risco jurídico ficou tão alto que muitas empresas preferem o caminho seguro – fazer um controle tradicional, com melhor ergonomia ou gatilhos adaptáveis, mas dentro de uma caixa bem definida e pouco litigiosa.
E não podemos ignorar o fator nostalgia, que agora tem valor de mercado. O Wii Remote é um ícone. Sua forma, seu som característico ao ser sacudido, até aquele strap de pulso que todo mundo perdia. Há um afeto cultural por aquele objeto. Para a Nintendo, defender sua patente também é defender a integridade dessa memória coletiva, impedindo que cópias de baixa qualidade manchem a lembrança do produto original. É uma batalha legal, mas também, de certa forma, sentimental.
O que o futuro reserva para os controles?
Enquanto advogados discutem o passado, a indústria já está tentando escrever o futuro. O foco agora parece ter migrado do movimento bruto do Wii para uma imersão mais sutil e integrada. O haptic feedback do DualSense da PlayStation 5, que permite sentir a tensão de uma corda de arco ou a textura de uma superfície, é um exemplo. Os controles do Meta Quest 3, que rastreiam seus dedos individualmente sem câmeras externas, são outro.
Essas novas tecnologias estão sendo patenteadas com um fervor ainda maior. As empresas aprenderam a lição. Elas não estão apenas protegendo um produto; estão cercando territórios inteiros de interação humana com a máquina. A briga pelo Wii Remote pode parecer um conflito do século passado, mas na verdade ela estabeleceu as regras do jogo para as disputas que estão por vir. A próxima grande batalha legal pode não ser sobre balançar um controle, mas sobre a sensação de tocar algo virtual ou sobre quem possui a patente de um gesto específico das mãos no ar.
E aí surge uma pergunta incômoda: essa corrida por patentes está fomentando a inovação ou está criando uma teia de restrições que só os gigantes conseguem atravessar? A Apple, com suas patentes relacionadas ao Vision Pro, e o Valve, com suas inovações no Index, estão construindo muros altos ao redor de seus jardins. A vitória da Nintendo contra a Nacon manda uma mensagem clara para o mercado: esses muros têm guardiões bem armados e dispostos a uma guerra longa.
Voltando ao caso específico, a estratégia de recorrer até o último instante, adotada pela Nacon, é mais comum do que se imagina. É uma jogada financeira. Às vezes, o custo dos recursos é menor do que o valor da indenização imediata, especialmente quando se pode arrastar o pagamento por anos, investir esse dinheiro e ganhar com os juros. É cínico? Talvez. Mas é o jogo dentro do jogo. A Nintendo sabe disso e, por isso, muitas vezes busca liminares que bloqueiam a venda dos produtos supostamente infringentes ainda no início do processo, um golpe muito mais doloroso para o adversário do que uma multa que só virá uma década depois.
O que me deixa pensativo é o legado do Wii nisso tudo. O console foi um sucesso estrondoso por quebrar barreiras e trazer novas pessoas para os games. Sua herança, ironicamente, parece ter sido a de erguer barreiras jurídicas complexas. O controle que simbolizou acessibilidade e diversão familiar agora é o protagonista de um tratado sobre litígios de alta complexidade. Há uma certa poesia triste nessa contradição.
Enquanto aguardamos o próximo capítulo no tribunal de Mannheim, uma coisa é certa: a indústria está de olho. Cada decisão, cada recurso, cada centavo de multa é um sinal para fabricantes de acessórios, desenvolvedoras independentes e até para as próprias gigantes. O caso Wii Remote vs. Nacon já não é só sobre um controle. É sobre quem dita as regras da próxima revolução na forma como jogamos. E, pelo andar da carruagem, essa partida ainda vai durar muitas jogadas.
Com informações do: Adrenaline
